História e Património das "Terras de Algodres"
(concelho de Fornos de Algodres)
ed. Nuno Soares
Contacto: algodrense(at)sapo.pt
Quarta-feira, 8 de Agosto de 2007
Algodres - História e Património (2)

 

 

- 1ª. parte -

 

 

 

Património arquitectónico e artístico[i]

 

  

 

O Algodres 2.JPG

 

(“O Algodres”  -  Agosto de 2001)

 

 

 

A Igreja Matriz de Algodres é o monumento mais antigo da aldeia. A actual construção, que terá sucedido a outras anteriores, datará do século XII e foi sucessivamente alterada desde então[ii].  De raíz românica, conserva o portal axial original, em arco ligeiramente apontado, assente sobre duas rudes colunas, numa das quais se encontram gravadas as medidas padrão do côvado e da vara vigentes no concelho. O campanário de três ventanas que remata a fachada principal data do século XVIII.  Na fachada posterior, está embutido um notável relevo, figurando o busto de um homem, popularmente conhecido como “o Algodres” e tido pelo fundador da povoação.  Trata-se, a n/ ver, de uma escultura de filiação românica, possivelmente coeva da construção inicial do templo, que parece representar um homem de religião, envergando um hábito monástico.  No interior da igreja, merecem especial referência os frontais dos altares colaterais, decorados com azulejos de aresta hispano-mouriscos (s. XVI), o altar-mor em talha dourada e policromada de vermelho (que integra / reutiliza duas excelentes pinturas quinhentistas, representando o Baptismo de Cristo e S. Pedro) e o tecto em caixotões (ambos do séc. XVIII).

 

 

 

  

 

Na praça contígua, domina o Pelourinho (s. XVI), um dos mais imponentes e elegantes no seu género. Trata-se de um pelourinho “de gaiola”, que tem como particularidades notáveis a coluna de fuste octogonal com cerca de 5,5 m., construída numa única pedra, o fino lavor do capitel e dos colunelos da gaiola - decorados com pequenas meias esferas - e os restos dos “ferros de sujeição” que ainda conserva.  À entrada da praça pode ver-se uma casa com uma janela quinhentista, igualmente decorada com meias esferas.

 

  

 

LargoMisericordia1.JPG

 

(Misericórdia de Algodres  -  Agosto de 2001)

 

 

 

Nas traseiras da Matriz encontra-se a Igreja da Misericórdia, que uma tradição arreigada afirma ter sido construída no local e com pedras do antigo Castelo (o que até hoje não foi possível confirmar). É plausível que uma povoação com a importância de Algodres tenha tido um reduto defensivo, desde os tempos problemáticos da Reconquista, a exemplo de outros desse período que se conhecem na região (alguns até em locais posteriormente despovoados[iii]). Porém, estando situada à ilharga das principais vias de comunicação N/S e E/O, Algodres nunca terá tido relevo estratégico que motivasse o investimento em fortificações de vulto.  A Misericórdia foi fundada em 1621, conjecturando-se que o templo tenha sido edificado entre os séculos XVII - XVIII. Tem adossado o edifício da Santa Casa da Misericórdia que comunica com o interior da igreja por uma tribuna (o “balcão dos mesários”). Possui um curioso púlpito exterior, conhecido como “Varanda de Pilatos”. No interior merecem destaque a imagem em madeira articulada do “Senhor da Cama” e um rico políptico do século XVII, tendo ao centro Nossa Senhora das Misericórdias, no qual José Hermano Saraiva quer ver, anacronicamente, um retrato da 2a. Condessa de Linhares, D. Violante de Andrade[iv].  No largo fronteiro à Misericórdia está implantado um Cruzeiro, de cruz trilobada, que será contemporâneo da construção daquela igreja.  Associados à Misericórdia, existem espalhados pela povoação seis nichos em pedra, nos quais são colocados painéis representando a paixão de Cristo, nas cerimónias litúrgicas da Páscoa.  O percurso que definem culmina no Calvário (que inclui a Capela da Senhora do Pé da Cruz), no Alto de S. João, um recinto belíssimo, povoado por cedros seculares. 

 

 

 

  

 

Tribunal2006.JPG

 

(Algodres  -  antigo edifício dos Paços do Concelho)

 

(foto de Albino Cardoso  -  Fevereiro de 2006)

 

 

 

Vale também a pena conhecer o edifício dos Paços do Concelho, Tribunal e Cadeia, que terá sucedido ao que primitivamente se localizava na Praça e que dá ideia da importância que o concelho alcançou.  Este edifício foi, depois, por algum tempo, solar da família Osório de Castro, o que explica o brasão que hoje ostenta.  Uma outra casa, situada no Largo da Nogueira, conserva também um brasão da mesma família. 

 

 

 

Vejam-se, noutra residência senhorial, outrora da família Camelo Forte, duas janelas de avental, provavelmente seiscentistas e, na cerca anexa, a torre romântica do “Mirante”.

 

 

 

Depois de conhecidos estes ex-libris da terra, perca-se o visitante nas graníticas ruas da aldeia, no prazer da descoberta de recantos e de outras memórias do passado, que seria impossível aqui registar.

 

 

 

Bibliografia e abreviaturas:  v. entradas de 2005-05-09.

 

 

 



Notas:

 

 

 

[i] Cf, em especial: CONCEIÇÃO, 1992 a;  CONCEIÇÃO, 1992 b  e  FIGUEIREDO, 2006;  DIONÍSIO, 1985;  FIGUEIREDO, 2004;  LEMOS, s/d a;  MARQUES, 1938, pp. 283-297;  REAL, 1949;  RODRIGUES, s/d;  SOUSA, Júlio, 1998;  VILHENA e VILHENA, 2002.

 

[ii] Esta igreja tem associada, como se referiu, uma necrópole que remonta à Alta Idade Média, que indicia que nesse período a paroquial de Algodres seria o principal pólo organizador da vida social nos territórios que integraram o termo do concelho medieval de Algodres.  À semelhança do que se verificou noutros templos da região nos sécs. XII-XIII, é provável que tenha sido reconstruída e ampliada por volta do séc. XII (o que é compatível com a sua traça), datando possivelmente de então a já referida reutilização de um sarcófago nas fundações da parede Sul.  A documentação conhecida, revela que nos sécs. XIII-XIV a Igreja de Algodres era uma das mais importantes do bispado de Viseu.  Em 1517, D. Manuel I afectou esta igreja a uma comenda da Ordem de Cristo, o que explica a inclusão da cruz da ordem no actual brasão da freguesia. 

 

[iii] Por exemplo, o “Castelo dos Mouros” de S. Pedro de Matos (em Forninhos, Aguiar da Beira  -  cf. COELHO, 1948, pp. 287-288 e pp. 291-293, embora propondo cronologia diversa; LEMOS, 2001, pp. 196-198; MARQUES, 2000b, p. 180; MARQUES, 2001, pp. 115 e 122; NÓBREGA, 2004, pp. 13-14, que indica mais bibliografia), o castelo de “Vale do Castelo” (em Carapito, Aguiar da Beira – cf. MARQUES, 2001, pp. 115-116 e 122; NÓBREGA, 2004, pp. 14-15) e, possivelmente, o “Penedo dos Mouros” (em Gouveia  -  cf. ANGELLUCI, TENTE e MARTINS, 2004 e TENTE, 2007a, pp. 45-50) e o reduto de “S. Gens”  (em Forno Telheiro, Celorico da Beira  -  cf. LOBÃO, MARQUES e NEVES, 2005).

 

Sobre o castelo de Algodres, v. também as entradas de Albino Cardoso publicadas aqui, aqui e aqui.

 

[iv] Cf. SARAIVA, 1994; SARAIVA, 2007 e a crítica de LEMOS, s/d a.  V. também esta entrada. 

 


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publicado por algodrense às 23:41
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2 comentários:
De Nuno Soares a 18 de Abril de 2008 às 22:15
Esta entrada foi actualizada em 2008-04-18.


De Nuno Soares a 10 de Janeiro de 2008 às 19:39
Esta entrada foi actualizada em 2008-01-09.


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