História e Património das "Terras de Algodres"
(concelho de Fornos de Algodres)
ed. Nuno Soares
Contacto: algodrense(at)sapo.pt
Segunda-feira, 11 de Junho de 2007
Acerca da origem da localidade de Matança - I

 

 

(colaboração de João Rocha Nunes)

 

 

 

É indubitável que a presença romana foi uma realidade na localidade de Matança, embora se desconheça se efectivamente esta povoação foi fundada pelos romanos. Alguns autores referem vestígios materiais que decorrem da chegada dos povos do Lácio às Terras de Algodres e em particular à localidade que iria adoptar no decurso da História o nome de Matança[i]. Leite de Vasconcelos, em finais do século XIX, nas prospecções que fez no Monte dos Matos, que dista de Matança cerca de 1 km detectou “destroços de duas ordens de muralhas concentricas; estas têm de largura actualmente 1 metro pouco mais ou menos. Num dos extremos de uma das muralhas ha o alicerce de uma casa rectangular de uns 6m X 4 m, porém não posso dizer a que época pertence. Abaixo dos destroços da ordem de muralhas inferior, num pinhal e em campos, depararamse-me muitos montinhos de pedras, ao parecer, de ruinas de casas. Sobre estes monticulos, e fóra  d’eles, pelo terreno das encostas,  - externamente, como digo ás muralhas – vi, inumeros fragmentos de tegulae de diversas côres (vermelhas, brancas e azulado-negras), e alguns  de imbrices. Concluí d’isto que no monte dos Matos houvera um castro, a que sucedeu, como em muitos outros casos se observa, a civilização romana.[ii]. Este mesmo autor  afirma, igualmente, ter achado no lugar de Matança  “tegulas, um denario de Augusto, e uma inscriçao funeraria[iii]”.

 

 

 

Pese hoje se desconheça o paradeiro dos vestígios assinalados por Leite de Vasconcelos no Monte dos Matos, parece verosímel a interpretação do autor: as “muralhas concêntricas” são susceptíveis de ser da Época Castreja, enquanto que os restantes documentos materiais são claramente da Época Romana. Leite de Vasconcelos sinaliza igualmente na Matança a existência de uma inscrição funerária.

 

 

 

Figura I

 

Inscrição da Matança[iv]

...................

 

XXVCAMI

 

RAIYTAIP

 

AN XVI

 

   ___

 

 

 

TONGETA

 

ARANTO

 

 

 

Como é visível pela figura I, quando Leite de Vasconcelos coligiu a inscrição, esta encontrava-se já muito deteriorada[v].  Todavia, e não obstante se encontrar mutilada,  a inscrição permite a obtenção de preciosos informes acerca da Matança na Época Romana. Com efeito, no documento em questão são perceptíveis os seguintes onomásticos – Camira, Tongeta e Aranto.  Camira é efectivamente um nome feminino de origem indígena[vi].  Tongeta trata-se de uma designação onomástica cuja origem  remete para a etimologia hispânica[vii]. Já Aranto parece ser a abreviatura de Arantonius que é um onomástico de origem celta e uma designação típica de Beira interior[viii]. A inscrição parece evidenciar, igualmente, a idade de dois indivíduos – 25 e16 anos, respectivamente. Esta inscrição data de cerca do século I, uma vez que se insere no tipo de documentos epigráficos funerários erigidos por uma população de origem local que lentamente assimilava a cultura romana, à semelhança do que acontecia em outras localidades da que mais tarde viria a ser designada de Beira Interior[ix]. A menos que surja alguma evidência em contrário, a importância desta inscrição para a história local  é que prova – pela presença de população autóctone na localidade - que a Matança foi fundada na Época Romana, mormente por população autóctone. Poder-se-ia pensar que esta localidade pudesse já ser uma realidade no período anterior à presença romana no território peninsular. Alguns autores referem a existência de um castro que estaria na origem da provoação[x]. Todavia, o facto de o Monte dos Matos ser povoado – não fazia sentido existirem dois núcleos habitacionais tão próximos - sugere que a Matança foi efectivamente fundada  no Périodo Romano, cerca do século I. A crer nas referências de Leite de Vasconcelos, o Monte dos Matos foi um castro romanizado. Este espaço continuou a ser habitado depois da chegada dos romanos. Ora, à semelhança do que aconteceu em outros locais  do norte de Portugal[xi], é possível que tenha existido uma transferência de população do referido Monte dos Matos para um espaço contíguo, situado em um vale e próximo de cursos de água, mais propício nesse sentido à prática agrícola.

 

João Rocha Nunes



Notas:

 

[i] A desginação de Matança não oferece dúvidas quanto à origem etimológica. A questão que se coloca é  que contendores teriam travado  o combate. Há quem sugira Romanos e Bárbaros e há quem se incline para Cristãos e Muçulmanos. Pinheiro Marques, Terras de Algodres, Ed. Câmara Municipal de Fornos de Algodres, 1988, p. 308.

[ii] Leite de Vasconcelos, De terra em terra, Ed. Imprensa Nacional, Lisboa, 1927, p. 140.

[iii] Idem, p. 140.

[iv] Esta inscrição aparece citada na obra de Fernando Barbosa Barros Leite, Concelho de Penalva do Castelo:  Recolha bibliográfica, contributo para uma monografia, Câmara Municipal de Penalva do Castelo, 1997, p. 40.

[v] É possível que esta  inscrição seja a que se encontre em uma das casas do Arrabalde, contíguo ao espaço designado de Castelo, e que no decurso do século XX foi coberta com argamassa em virtude de obras de melhoramento da referida habitação.  

[vi] Ana Paula Ramos Ferreira, Epigrafia Romana na Beira Interior: Evolução ou Continuidade?, Instituto Português de Arqueologia, 2004, p. 23.

[vii] O onomástico “Tongeta” encontra-se no  território português e em algumas regiões de Espanha, designadamente em Cárceres . J.J. Sayas; J.L. Sánchez, Nuevas inscripciones cacerenas, In Anejos de Gerión, II, Ed. Universidad Complutense, Madrid, 1989, p. 434 – 436.

[viii] Idem, p. 23.

[ix] Idem, p. 21.

[x] João de Almeida, Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses, Ed. do autor, 1945, vol. I, p.240.

[xi] Jorge Alarcão,  Notas de Arqueologia, epigrafia e toponímia, In Revista Portuguesa de Arqueologia, volume 7, nº 1, 2004 p. 208 – 209.


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publicado por algodrense às 20:19
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3 comentários:
De Nuno Soares a 15 de Junho de 2007 às 08:46
Caros amigos: faço votos de que as v/ excelentes sugestões encontrem eco junto das autoridades e proprietário. Um abraço,


De Joo Nunes a 14 de Junho de 2007 às 21:43
CAro Albino De facto seria interessante voltar a pôr a inscrição a descoberto. Até porque me foi comunicado que algumas pessoas se deslocavam à Matança com o propósito de observar a referida inscrição. Todavia, não creio que tão cedo possa ver a luz do dia, a menos que através de algum incentivo se possa sensibilizar o proprietário para esta questão. As autoridades locais poderiam efectivamente diligenciar nesta matéria, uma vez que o património é uma das riquezas concelhias. Um abraço


De al cardoso a 13 de Junho de 2007 às 09:23
Bem vinda mais uma colaboracao do Dr. Rocha Nunes, sobre a Matanca.
Ocorreu-me so uma pergunta, porque nao sensibilizar o actual proprietario da casa com a lapide referida, para a por novamente a descoberto?
Creio que se seria de uma enorme valia!

Um abraco amigo.


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