História e Património das "Terras de Algodres"
(concelho de Fornos de Algodres)
ed. Nuno Soares
Contacto: algodrense(at)sapo.pt
Segunda-feira, 7 de Maio de 2007
A “Torre do Alcaide” (Muxagata)

  

 

Num outeiro da chamada “serra de Belcaide”, no limite da freguesia da Muxagata com a freguesia de Vila Chã, a toponímia e a memória popular registam a existência de uma “torre”.  João de Almeida referiu a tradição da existência desta torre, que julgou teria servido de atalaia[i].

 

 

 

Numa interessante entrada deste blog, dedicada às “Muralhas, Castelos e Torres em Terras de Algodres”, Albino Cardoso propôs que a torre fosse denominada “de Vila Chã”, por estar no limite dessa freguesia ou por “Torre de Belcaide”, acrescentando sagazmente a dúvida: “...ou seria do alcaide?”.

 

 

 

 

Em entrada hoje aqui publicada, foi divulgado um tombo da Ordem de Cristo, de Janeiro de 1508, que transcreve um tombo mais antigo, de cronologia indeterminada, o qual refere, na demarcação do termo da aldeia da Muxagata e no limite deste, uma “torre do alcaide”[ii], em localização compatível com a da torre acima mencionada.  Parece assim seguro, ou pelo menos plausível, que, em momento anterior ao séc. XVI, o sítio se denominava “torre do alcaide”, denominação que proponho passe a ser atribuída à estrutura que ali terá existido.

 

 

 

Não tenho elementos que permitam esclarecer se o topónimo “Belcaide” poderá vir de “alcaide”, como parece sugerir a hipótese colocada pelo meu amigo Albino Cardoso.  Anoto, apenas, que o topónimo “Belcaide” já existia, nessa forma, pelo menos em 1170, data em que foi outorgada uma carta de couto a Figueiró da Granja, a qual, na demarcação do respectivo termo, refere, designadamente “... et per illam stratam quae vadit ad Belcaire ...”[iii]. Em princípio, não se afigura muito natural que, à época, já se tivesse registado uma evolução toponímica, de “alcaide” para “belcaide”, mas, as várias possíveis relações entre ambos os topónimos (ou a ausência delas) são questão em aberto...

 

 

 

Pedro Pina Nóbrega incluiu esta torre num recente estudo sobre a castelologia de entre Dão e Mondego, no qual coloca a hipótese de a mesma ter servido de atalaia, auxiliando um castelo principal, como o de Queiriz[iv]

 

  

 

 É uma hipótese perfeitamente possível. No entanto - como também refere este autor - continua a ser muito difícil determinar, com um mínimo de segurança, o enquadramento cronológico, a funcionalidade e as inter-relações que terão estabelecido os castelos e torres da região, enquanto não forem elaborados, por ex., perfis altimétricos e obtidos elementos (arqueológicos, documentais, ...) que possam esclarecer as questões que se colocam à investigação.  Há, nesta matéria, um imenso campo de trabalho, que ainda não começou a ser desbravado. 

 

  

 

 Para terminar, permito-me colocar, também, uma hipótese de trabalho sobre esta “Torre do Alcaide”  -  hipótese que assumo ser puramente especulativa, à luz dos dados actualmente disponíveis. 

 

  

 

 Como referi em entrada hoje aqui publicada, é sabido que as terras da Muxagata estavam, em meados do séc. XIII, na posse do alcaide-mor de Celorico da Beira, Fernão Rodrigues Pacheco, que as trazia como honra, não respeitando os direitos do concelho de Algodres (a cujo termo pertencia a Muxagata) ou os direitos reais. 

 

  

 

 Será possível que a chamada “Torre do Alcaide”, implantada bem no limite das terras da Muxagata, em local altaneiro e de grande visibilidade (de e para a envolvente do sítio), tenha sido mandada edificar (ou reconstruir) pelo referido alcaide de Celorico, como forma de afirmação, simbólica e de facto, do domínio senhorial que se arrogava?

 

 

 

Bibliografia e abreviaturas:  v. entradas de 2005-05-09.

 

 



Notas:

 

 

 

[i] Cf. ALMEIDA, 1945, p. 241.

 

[ii] Cf. GONÇALVES, 2006, p. 12.

 

[iii] Cf. MARQUES, 1938, p. 245.

 

[iv] Cf. NÓBREGA, 2004, pp. 24 e 32.

 



publicado por algodrense às 06:30
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4 comentários:
De Nuno Soares a 11 de Maio de 2007 às 12:14
Caro Pedro:
Muito obrigado pela sua visita e pelo amável comentário e informações dele constantes.
A castelologia é um dos meus assuntos favoritos, em especial no referente aos castelos românicos e dos períodos imediatamente anteriores, pelo que o seu estudo me despertou o maior interesse.
Fico a aguardar, com curiosidade, a dissertação de J. A. M. Marques (que em tempos fez, em Fornos, levantamento de sepulturas escavadas na rocha). Também espero consultar o estudo desse autor que cita no seu trabalho como MARQUES, 2001, mas não tenho tido acesso a esse volume das Actas do 3º. CAP (já o encomendei há meses, mas ainda não recebi...).
Tenho pena que se esteja a investir tão pouco na investigação da arqueologia medieval da n/ zona. Sítios que parecem ter um potencial de investigação fabuloso - como S. Pedro de Matos - continuam ignorados e sujeitos a depredações.
Melhores dias virão?
Cordiais cumprimentos do,


De Pedro Pina Nbrega a 11 de Maio de 2007 às 11:06
Caro Nuno

Parabéns por mais um aniversário do seu blog que continua a divugar as terras do concelho de Fornos de Algodres.

Pois é, já nem me lembrava que também eu me tinha "dedicado" à castelologia destas terras.
De facto propus no trabalho, e atendendo aos dados que tinha, uma relação com o Castelo de Queiriz. Mas sinceramente não sei se haverá visibilidade entre os dois elementos. Como referi faltou o pefil orográfico ou altimétrico. Por outro lado nesse trabalho a documentação não foi compulsada. E os dados que adianta sobre Celorico poderá ter todo o sentido.
O Professor Mário Barroca (1989, p. 19) refere que as Torres "são implantadas sistematicamente em zonas de vale, onde a componente agrícola predomina, mas escolhendo, nessas terras baixas e férteis, pequenas elevações para nelas se apoiarem, as Torres senhoriais do século XIII reflectem uma dupla opção: por um lado uma implantação rural, normalmente arredada dos grandes centros urbanos e na orla de pequenos
núcleos de povoamento rural, conscientemente pautada pelas Honras e pela necessidade crescente de Senhor se aproximar dos seus domínios, mas, por outro lado, uma escolha criteriosa que, pesar de tudo, não ignora a necessidade de se preservarem condições mínimas de defesa." (respectiva referência bibliográfica está no meu trabalho)
Ora este poderá ser o caso da Torre da Muxagata. Poderá ser uma torre senhorial que para se garantir as condições minimas de defesa foi implantada a uma cota mais elevada. Ou então ter a dupla função, de atalaia com ligação ao castelo de Celorico e de senhorial no dominio das terras do Alcaide.
Mas como refere o Nuno só um tabalho aturado e profundo poderá ou não dar mais algumas luzes a este assunto.
Como informação, digo-vos que existe registado pelo Mestre Jorge Adolfo Meneses Marques o seguinte tema de doutoramento: "O Povoamento da região de Viseu do Paroquial Suévico às Inquirições de D. Afonso III". Já foi inscrito há bastante tempo, por isso deve estar na recta final. Talvez este trabalho traga algumas luzes, não do ponto de vista de trabalhos arqueológicos, pois até ao momento nenhum foi feito por este doutorando mas no que diz respeito a documentação.


De Nuno Soares a 8 de Maio de 2007 às 11:00
Caro Albino: muito obrigado pela visita e pelo comentário.
A hipótese relativa ao alcaide de Celorico, não passa de isso mesmo: mais uma hipótese. Mas, a ter alguma viabilidade esta hipótese, a questão da visibilidade poderá explicar, a meu ver, ao menos em parte, a razão pela qual a torre não foi construída na ou junto à povoação, como seria mais próprio de uma torre de iniciativa senhorial. A localização na Muxagata, no fundo do vale, junto à ribeira, não permitiria, o controle da aproximação de "invasores" ou a comunicação (em caso de necessidade) com o castelo do alcaide, em Celorico. A posição ocupada pela torre, mais própria de uma atalaia (como refere o n/ amigo Pedro Pina Nóbrega) permitiria cumprir ambas as funções, o que, à luz das específicas circunstâncias desta hipótese, não seria irrelevante, uma vez que as terras estariam na posse do alcaide sem o acordo do concelho, não deixando o alcaide lá entrar os encarregados da cobrança dos direitos reais (se necessário pela força ou ameaça dela...).
Claro que a verdade pode ter sido outra. As possíveis hipóteses de base especulativa são quase infindáveis. Ainda que a designação tenha a ver com um alcaide do castelo de Celorico, pode, por ex., a torre ter funcionado como atalaia, em momento diferente ou até sem qualquer relação com a posse da Muxagata por Fernão Rodrigues Pacheco...
A própria coincidência da implantação da torre com o limite das terras da Muxagata, permite, naturalmente, várias leituras. Pode ser fruto do acaso e determinada, apenas, pelas potencialidades estratégicas do local; pode a torre ter sido construída nesse limite, por razões de visibilidade mas também para vincar a posse sobre o território que ali tinha uma das estremas; pode na definição das estremas, ter-se aproveitado como marco uma torre pré-existente, que seria um bom ponto de referência, ...
Só uma investigação aprofundada destas matérias poderá trazer alguns dados que permitam esclarecer as várias questões e hipóteses em presença.
Esta entrada, limita-se a divulgar algumas questões em aberto sobre a Torre do Alcaide, de que a tradição conservou a memória, mas da qual poucos dos n/ contemporâneos ouviram falar, levantando, de passagem, uma hipótese de trabalho, que pode ser atractiva, mas continua a ser, apenas, mais uma hipótese.
Um abraço amigo do,


De al cardoso a 8 de Maio de 2007 às 09:05
Muito interessante este seu artigo, a final sempre e a "Torre do Alcaide"! E muito provavel que a hipotese colocada de ter sido do alcaide de Celorico, tenha alguma verdade. De facto deste lugar descobre-se a vila e o castelo de Celorico.

Excelente trabalho.Um abraco de amizade


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