História e Património das "Terras de Algodres"
(concelho de Fornos de Algodres)
ed. Nuno Soares
Contacto: algodrense(at)sapo.pt
Segunda-feira, 18 de Setembro de 2006
FUINHAS e SOBRAL (PICHORRO)

(colaboração de Albino Cardoso)

 


Pelas Inquirições de D. Afonso III, de 1258, sabe-se que no limite do antigo concelho de Algodres já existia a aldeia do "Soveral" (presentemente Sobral Pichorro), por essa altura pertença da Igreja de "Sancta Maria" daquela vila, o que pressupõe que não possuísse paroquial por essa altura.

Não tenho nenhum conhecimento de que nessas Inquirições haja alguma referência à aldeia de Fuinhas. De facto essa aldeia então não existe, pois aquando da instituição da freguesia de Funha (hoje Fuinhas), creio que no século XV ou XVI (já existia em 1526, no Cadastro da População do Reino, de D. João III) era constituída pelos lugares de: Corugeira, Lameira, Casas e Santo.

É muito provável que, no século XIII, a área da actual freguesia de Fuinhas estivesse incluída na área da aldeia do "Soveral".  Esta minha suposição baseia-se nos seguintes factos:

 

-         Devido a ter sido propriedade da referida igreja de Santa Maria, de Algodres, ainda no século XVIII todos os habitantes do Sobral tinham que ir em voto aquela igreja, no dia 15 de Agosto e oferecer ao Vigário daquela igreja um frango ou galinha, como reminiscência do pagamento dos foros devidos pelo uso da terra (v. Mons. Pinheiro Marques, “Terras de Algodres”, pág. 290);

 

-         Acontece que este mesmo voto e pagamento, tinha que ser feito também pelos moradores das Fuinhas (Mons. Pinheiro Marques, “Terras de Algodres”, pág. 290);

 

 

 

-         Enquanto todas as freguesias do concelho de Algodres, sufragâneas da de Santa Maria, tinham que cumprir aquele voto, esse pagamento era unicamente feito pelos moradores do Sobral e Fuinhas;

 

 

 

-         Ainda hoje o orago das paroquiais de Fuinhas e Sobral é o mesmo: "Nossa Senhora da Graça", o que é anormal para duas igrejas vizinhas e tão próximas;

 

 

 

-         De notar, também, que embora essas paróquias possam ter tido oragos diferentes dos actuais, embora não conhecidos, estes denotam uma antiguidade pouco remota, pelo que o mais provável é que estas igrejas tenham sido fundadas já na “idade moderna" (a igreja do Sobral Pichorro é barroca).

As únicas reticências posso encontrá-las no facto de a  igreja das Fuinhas possuir rasgos do "Românico simples", mas isso, por si só, não indicia que seja da época medieval. O mais provável é que tenha sido construída mais tarde, copiando igrejas existentes na região, comprovadamente muito mais antigas, casos de Queiriz, Vila Chã, Cortiçô, Muxagata, etc., templos comprovadamente medievais.

 

 

 

A ser assim, o templo mais antigo na área das actuais freguesias do Sobral Pichorro e Fuinhas é, sem dúvida nenhuma, a capela de Santo Cristo, no Sobral.   É uma pequena capela romano-gótica, que embora lhe tenham agregado registos "jesuíticos", possui ainda muito da sua primitiva traça.  Pena é que algumas pedras que fariam recuar a fundação à época "visigótica", presentemente se encontrem irreconhecíveis, pois,  tendo-se reconstruído a fachada na primeira metade do século XX, procedeu-se a algumas modificações bem desnecessárias. No entanto, essas pedras ainda podem ser vistas numa fotografia tirada nessa altura (pode ver-se no sitio: www.monumentos.pt).

 

 

 

SantoCristo.jpg

 

 

 

No interior dessa capela em Sobral Pichorro, encontra-se um túmulo, com estátua jacente, que se supõe ter sido do fundador da capela. Ora, sabendo-se da existência da família "Soveral" na vizinha aldeia de Vila Chã, em épocas anteriores ao século XVI, será que esse túmulo é de algum Soveral, que tenha dado ou recebido o nome desta antiquíssima aldeia?

 

 

 

Albino Cardoso

 

2006-08-30

 



publicado por algodrense às 00:15
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2 comentários:
De Nuno Soares a 20 de Setembro de 2006 às 22:39
Caros PPN e Albino:
Esta colaboração do Albino e o comentário do Pedro, contributos que muito agradeço, abordam questões sobre as quais não tenho ideias muito claras, pelo que deixo apenas algumas notas apressadas à v/ consideração e de todos os que queiram ajudar a reflectir sobre o assunto.
Na verdade, as Inquirições de D. Afonso III não mencionam Fuinhas. Julgo que daí não se deve deduzir necessariamente que a aldeia não existisse, tanto mais que a generalidade das povoações das Terras de Algodres já existiriam, com as denominações actuais ou muito próximas, conforme resulta de vários documentos dos sécs. XII-XIII. Porém, tanto quanto sei, também não se conhecem quaisquer referências a Fuinhas ou vestígios de povoamento que remontem a essa época, pelo que a hipótese colocada pelo Albino é, sem dúvida, interessante. Aliás, mesmo para a alta idade média, a freguesia de Fuinhas é uma das poucas do concelho em que ainda não se encontraram (ao que sei) sepulturas escavadas na rocha.
A capela do Santo Cristo, em Sobral Pichorro e o seu jacente são dos monumentos mais singulares da região, infelizmente pouco estudados. Embora reaproveitando materiais mais antigos, o essencial da actual construção será da baixa idade média (provavelmente não ultrapassando os sécs. XIII / XIV (v. as singelas abóbadas sustentadas por modestos arcos ogivais). O jacente é de feição bastante arcaica e, tanto quanto se consegue hoje perceber, despojado de elementos que contribuam para a identificação do defunto. Podendo ser um produto menor de épocas posteriores, será mais provavelmente, a meu ver, uma obra arcaica, possivelmente do século XIII, não devendo ultrapassar, em qualquer caso, o séc. XIV.
Não havendo quaisquer elementos conhecidos que possam elucidar sobre a identidade do defunto e data de construção destes monumentos, é razoável admitir, como tem sido sugerido, que este túmulo com estátua jacente, colocado num arcossólio no interior da capela, poderá ser do fundador da capela actual (não sabemos se terá havido edificações anteriores). Como sugere o Albino, poderá até ser de um nobre (o Inventário da DGEMN refere a existência de vestígios de possíveis símbolos heráldicos pouco perceptíveis, o que ainda não consegui comprovar), com alguma relação com o nome da terra. Sabendo-se, pelas Inquirições de 1258 (PMH-INQ, p. 790), que a aldeia era da Igreja Matriz de Algodres em meados do séc. XIII (“...ecclesia de Algodres habet unam aldeyam in termino de Algodres, et nullum forum facit Regi. Et aldeya vocatur Soveral”) e que teria chegado, em parte, à posse da Igreja, por doação testamentária (“...ipsa aldeya que est de ecclesia fuit de testamento et de conpara”), até se pode colocar a hipótese de que a doação esteja relacionada com a fundação desta capela. Mas, como o jacente não ostenta quaisquer atributos evidentes de cavalaria ou nobreza, sendo mais compatível com uma iconografia religiosa / piedosa, também se poderá arriscar a hipótese de se tratar de um pároco de Santa Maria de Algodres, que tenha fundado esta capela em terras daquela Igreja.
Tanto quanto consigo ler na TT OnLine (a única letra arrevesada que entendo é a minha – e nem sempre...), a Memória Paroquial de Sobral Pichorro, de 1758 (aliás algo confusa porque o cura não numera as respostas em consonância com a numeração do questionário) também não adianta nada a este respeito e, designadamente, não refere quaisquer “homens insignes por virtudes, letras ou armas”.
Creio que só com um estudo sério dos monumentos e/ou com a descoberta de novas evidências poderemos pisar terrenos mais seguros.
Lamento ter-me alongado tanto, para dizer, afinal, tão pouco. Estes comentários improvisados ao correr do teclado nunca se sabe como terminam...
Cordiais saudações do,


De ppn a 20 de Setembro de 2006 às 17:19
Caro Nuno e Albino

Já viram o que a memória paroquial diz sobre sobral pichorro. uma das perguntas era sobre varões ilustres e coisas dignas de memorias.
Quanto às paroquiais, tratando-se de duas igrejas sob a invocação mariana já viram o santuário mariano? ele costuma ter mais sobre ermidas, mas nunca se sabe.


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