História e Património das "Terras de Algodres"
(concelho de Fornos de Algodres)
ed. Nuno Soares
Contacto: algodrense(at)sapo.pt
Terça-feira, 25 de Julho de 2006
Crime e castigo nas terras de Algodres (1684-1689): o caso do padre Manuel Cabral - I

 

 

(colaboração de João Rocha Nunes)

 

 

 

A visita pastoral foi um dos instrumentos ao dispor dos prelados, no período moderno, para corrigir e disciplinar os comportamentos dos fiéis[i]. Decorrente das determinações do Concílio de Trento, obrigava-se todos os bispos ou alguém enviado por eles (o visitador)[ii], com uma periodicidade quase anual, a percorrer todas as freguesias da diocese[iii]. O intuito da visita, para alem da difusão da pastoral, era o de verificar o estado de conservação das infra-estruturas religiosas e objectos de culto, de perscrutar a vida e acção do pároco e clérigos locais e de procurar disciplinar determinados comportamentos considerados desviantes do conjunto de fiéis que habitavam uma determinada comunidade: os então designados “pecados públicos”, porque a notícia do delito era, muitas vezes, de ordem pública, isto é a comunidade, ou alguns indivíduos da localidade tomavam conhecimento dos crimes por presenciarem a prática dos mesmos ou pela existência da chamada “fama pública”[iv]. 

 

Entre 1684 e 1689 “caíram” nas malhas da justiça episcopal de Viseu seis indivíduos originários das terras de Algodres. Mais do que os aspectos associados ao funcionamento do tribunal episcopal ou da mecânica das devassas na diocese de Viseu, interessa-nos perscrutar a existência de cada uma destas pessoas, em particular os comportamentos que despoletaram a acção judicial operada pelo poder episcopal de Viseu.

 

Em inícios de 1684, o padre Manuel Cabral, morador em Infias, que vivia com o irmão Pedro Cabral, abade desta mesma localidade desde 1649[v], iniciou uma relação afectiva com a criada “por mais de seis meses athe ao tempo da vesita a qual acabou por engravidar … e logo que a cúmplice se mostrou prenha se fora para o bispado da Guarda por ordem do réu”[vi].

 

Este caso é paradigmático da rede de relações pessoais que se estabelecia entre familiares e dependentes. Com efeito, Manuel Cabral vivia na dependência do irmão que era o sustentáculo da família, em virtude do benefício que auferia como abade de S. Pedro de Infias. Por outro lado, a vivência em Infias do pároco e de alguns membros da sua família por um período de largas dezenas de anos, promoveu o reforço dos laços sociais entre os clérigos e alguns dos habitantes da localidade. Muito embora os bispos obrigassem a que as criadas dos eclesiásticos fossem de idade superior a 50 anos[vii] - para evitar situações de proximidade afectiva entre eclesiásticos e o género feminino -   esta determinação, como se verifica pelo presente caso, nem sempre se cumpria nesta época – nos nossos dias já não se pode dizer o mesmo; todos nós nos lembramos que os padres tinham e penso que ainda têm para as lides da residência paroquial maioritariamente pessoas do sexo feminino cuja juventude há muito se apagou -  a acção episcopal no período moderno, nesse sentido, acabou por surtir o efeito desejado.  

 

Mas voltemos à Infias do século XVII. Numa tentativa de ocultar a prova do crime, Manuel Cabral enviou a criada e o filho para o bispado da Guarda. Esta prática – ocultação da prova do crime -  que por alguns processos mais ou menos mediáticos podemos verificar que chegou até à actualidade,  não foi suficiente para que o réu saísse ileso do processo. Foram condenados a uma pena pecuniária de “primeiro lapso” para as obras da sé e custos do processo. Numa época em que judicialmente se era culpado “em prova em contrário”, ambos foram culpabilizados – a existência de três testemunhas que corroborassem a culpabilidade de alguém era suficiente para se efectivar a sua condenação e pelos vistos havia em Infias quem aparentemente não gostasse ou reprovasse as acções do padre Manuel Cabral. 

 

 Notas:

 


[i] Sobre o processo das visitas pastorais ver em particular a síntese sobre esta matéria feita por José Pedro Paiva, “As visitas pastorais” in Carlos Moreira Azevedo, História Religiosa de Portugal, vol. II, p. 250-255.

 

[ii] Seria interessante saber se existe, ainda, este tipo de fontes nas freguesias que compõem o concelho de Algodres, uma vez que são relevantes para o estudo da história local.

 

[iii] José Pedro Paiva e Joaquim Ramos de Carvalho, “Visitações”, in Carlos Moreira Azevedo, Dicionário de História Religiosa de Portugal, Círculo de Leitores, 2000, p. 367.

 

[iv] Idem, p. 101.

 

[v] Pedro Cabral era natural de Viseu e foi provido na abadia de Infias no dia oito de Março de 1649.ADV (Arquivo Distrital de Viseu)  - Livros do Cabido, Colações, 271/330, fls. 7v-8v.

 

[vi] ADV, Câmara Eclesiástica, Livro de Registo dos Sumários das Sentenças, 8/54 fls. 2v-3; fls. 4-4v

 

[vii] João Manuel – Constituições Sinodais do Bispado de Viseu, 1617.

 



publicado por algodrense às 08:35
link desta entrada | comentar | favorito

1 comentário:
De a. cardoso a 25 de Julho de 2006 às 20:54
Caro Dr. Rocha Nunes:
Ja me tinha dado conta desse processo, mas nao sabia a que se referia. Pelo que se ve ja nesse tempo, em em todos os tempos, os sacerdotes, tinham as suas aventuras.
bem haja por mais esta investigacacao, e aqui ainda mais interessante por ser, da minha terra adoptiva.


Comentar post

pesquisar
 
Agosto 2015
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


entradas recentes

...

Sobral Pichorro e Fuínhas...

...

Freguesia de Muxagata no ...

...

Freguesia de Maceira no C...

...

...

Freguesia de Fornos de Al...

...

links
temas

abreviaturas

algodres

alminhas

bibliografia (a - f)

bibliografia (g - r)

bibliografia (s - z)

bibliografia algodrense

capelas

casal do monte

casal vasco

castro de santiago

cortiçô

crime e castigo

documentos

estatuto editorial

estelas discóides

figueiró da granja

fornos de algodres

fortificações

fraga da pena

fuínhas

heráldica

humor

índice

infias

invasões francesas

juncais

leituras na rede

lendas e tradições

maceira

marcas mágico-religiosas

matança

migração do blog

mons. pinheiro marques

muxagata

notícias de outros tempos

personalidades

pesos e medidas

publicações recentes

queiriz

quinta da assentada

ramirão

rancozinho

sepulturas escavadas na rocha

sobral pichorro

toponímia

vias romanas

vila chã

todas as tags

arquivos

Agosto 2015

Julho 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Março 2013

Maio 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

blogs SAPO
mais sobre mim
subscrever feeds
Redes

Academia

Facebook

LinkedIn