História e Património das "Terras de Algodres"
(concelho de Fornos de Algodres)
ed. Nuno Soares
Contacto: algodrense(at)sapo.pt
Quarta-feira, 8 de Março de 2006
A importância de Fornos na época moderna

JFFornos-Postal.jpg

 

(colaboração de João Rocha Nunes)

 

            Nota Prévia: o presente texto foi inicialmente projectado para ser um comentário ao artigo de Albino Cardoso – A Santa Casa da Misericórdia de Algodres. Aliás, quero cumprimentar o seu autor pelo facto de se ter debruçado sobre a história e estética desta instituição algodrense. No entanto, por me alongar na escrita, achei que seria preferível publicar este texto em forma de artigo.

 

            Penso que a localidade de Algodres, apenas por ter sido pioneira nas terras de Algodres no que se refere à instituição da Misericórdia, não pode ser considerada como mais importante do que Fornos em inícios do século XVII. O facto de Fornos não ter tido esta instituição mais cedo pode ser explicado pela razão de já existir nesta localidade um hospital, pelo menos desde o século XVI[i]. De notar, que a partir do momento em que a Misericórdia foi instituída na vila, a existência do hospital deixou de fazer sentido, tendo sido extinto e os bens incorporados no património da Misericórdia[ii].

 

Sem dúvida que na baixa Idade Média Algodres foi a localidade mais importante de todas aquelas que actualmente compõem o concelho de Fornos de Algodres em virtude, entre outras coisas, da sua localização geográfica, que permitia em tempos de guerra exercer um controlo efectivo do vale do Mondego. Todavia, com o advento da época moderna, e com uma certa pacificação do território português, alguns locais foram perdendo importância – Algodres foi um deles. Penso que Fornos se destacou das outras localidades, e em particular de Algodres, logo a partir de inícios do século XVI, sendo que no século XVII já era seguramente o local de maior relevância de todos os que actualmente compõem o concelho. Consubstancio esta minha hipótese nos seguintes elementos:

 

1 – Quantitativos populacionais: em 1527, Fornos tinha mais habitantes do que Algodres; no decurso deste século e da centúria seguinte o aumento demográfico de Fornos é muito superior ao das outras localidades circunvizinhas[iii].

 

2 – Representações religiosas/simbólicas: a procissão de Corpus Christi – em 1555 eram obrigados a se deslocarem a Algodres (para além das gentes do seu termo) as populações de Fornos, Matança, Infias e Pena Verde, por forma a participarem na festa de Corpo de Deus[iv]; Em 1617, já esta festa se fazia em Fornos, com as gentes de Infias, Matança e Figueiró. A procissão de Corpo de Deus em Algodres, embora não deixasse de se fazer, passava a ser realizada apenas com os habitantes da localidade e do termo[v]. Esta “desvalorização” de Algodres feita pelo bispo de Viseu, com a perda de população de outros concelhos na festa mais importante do calendário religioso, é claramente um sinal do declínio da localidade que contrasta nitidamente com a valorização de Fornos neste período.

 

3 - A Misericórdia de Fornos: embora sendo mais recente, cerca de meio século do que a sua congénere algodrense, foi seguramente mais rica do que a de Algodres. Daqui se infere que esta localidade, através de uma dinâmica própria, gerou um conjunto considerável de receitas, sendo que parte deste rendimento foi canalizado para a edificação de uma obra assistencial no decurso dos séculos XVII e XVIII [vi].

 

 Este acentuado desenvolvimento de Fornos no decurso da época moderna pode ser explicado por um conjunto de factores, em particular pelo facto desta vila se situar junto a uma das principais vias de comunicação do país (Pinheiro Marques já tinha relevado este aspecto, embora a meu ver não o tenha suficientemente valorizado)[vii]. A sua privilegiada situação geográfica acabou por potenciar o desenvolvimento da localidade (comercial e agrícola) e Fornos transformou-se num pólo de atracção de pessoas, inclusive alguns estrangeiros (um dos indivíduos que caíram nas malhas da Inquisição, em 1653, foi um tal de Diogo Martins de Portilho, barbeiro, de Biscaia, e residente em Fornos de Algodres)[viii].

 

O desenvolvimento comercial, aliado a um desenvolvimento da prática agrícola potenciado pelas características do clima e do solo, foram determinantes para um efectivo aumento demográfico. Não será de excluir que alguma população de Fornos fosse, também, oriunda de localidades próximas, inclusive de Algodres – só um estudo demográfico o pode asseverar. Como mero exemplo, veja-se o caso do pai de Costa Cabral, António Bernardo da Silva Cabral, que era natural de Algodres, tendo casado em Fornos com Francisca Vitória Rebelo e estabelecido residência nesta vila[ix].

 

O facto do liberalismo ter legitimado Fornos como sede concelhia em 1834, não foi mais do que o reconhecimento de uma localidade cuja dinâmica já seguramente remontava aos primeiros decénios da Idade Moderna.

 


NOTAS:

[i] Pinheiro Marques – Terras de Algodres, Ed. Câmara Municipal de Fornos de Algodres, 1988, p. 139-140.

 

[ii] Idem, ibidem.

 

[iii] Ver os quantitativos populacionais para as terras de Algodres publicados por Pinheiro Marques, ob., cit., p. 106; 156.

 

[iv]D. Gonçalo Pinheiro – Constituições Sinodais do Bispado de Viseu, 1555, fl. 48v.

 

[v] D. João Manuel – Constituições Sinodais do Bispado de Viseu, 1617, fl. 244.

 

[vi], Instituto de Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, Memórias Paroquiais, vol. 16, nº 129, p. 793-394; Pinheiro Marques, ob., cit., p. 121.

 

[vii] Pinheiro Marques, ob., cit., p. 106.

 

[viii] Instituto de Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, Inquisição de Coimbra, Processo de Diogo Martins de Portilho, 1653, Masso 339º.

 

[ix] Arquivo Distrital da Guarda – Registos paroquiais de Fornos de Algodres, Baptismos, rolo 66, fl. 79.

 



publicado por algodrense às 22:22
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De Nuno Soares a 13 de Março de 2006 às 15:17
Caro Dr. João Nunes:
Como já disse, creio que terá razão quando afirma que, no território do actual concelho de Fornos de Algodres, a partir da época moderna, a povoação de Fornos, beneficiando das vantagens da sua localização, se constituiu num pólo urbano e económico que rivalizava com a povoação de Algodres, que fora hegemónica durante toda a Idade Média, acabando por suplantá-la. Creio também, que aquando da extinção dos antigos concelhos e criação do actual, seria provavelmente incontornável a escolha de Fornos para sede concelhia, pela importância relativa da povoação em relação às demais e sua vantajosa situação geográfica, não obstante estar situada num dos extremos do novo concelho.
No entanto, inclino-me a considerar que, se a vila de Algodres foi perdendo importância em relação à vila de Fornos, o concelho de que era sede continuou, mesmo na época moderna e até à extinção, a ser o de maior importância neste território.
Como diz, mantiveram-se os termos da época medieval. Em consequência, o termo de Algodres era não só o mais vasto como o mais populoso. Se já no século XVI a população da vila de Algodres era inferior à da vila de Fornos, no plano concelhio a diferença populacional era esmagadora, com vantagem para Algodres. A importância, recursos e o volume da máquina administrativa do concelho de Algodres não terão decaído, na época moderna, em relação a Fornos, em termos equiparáveis ao decaimento da povoação sede do concelho.
No primeiro quartel do século XVI, os paços do concelho de Algodres deviam ainda situar-se na praça da povoação. O pelourinho manuelino terá sido instalado na sua proximidade, como era habitual. Em época posterior, que ainda não foi precisada (mas que me atrevo a alvitrar rondará o século XVII), o concelho de Algodres passou a dispôr de um novo edifício onde instalou os serviços públicos (tribunal, paços do concelho, ...), que era de longe o mais imponente das “Terras de Algodres” e um dos melhores da Beira Alta (actualmente ainda existe, embora amputado do piso superior num dos corpos laterais). Ora, se é incontestável que um concelho mais importante poderá ter paços do concelho inferiores aos de concelhos de menor importância, a construção, em Algodres, na época moderna, de tais paços do concelho, não pode deixar de revelar que o concelho mantinha então capacidade e recursos compatíveis com tão importante investimento e, provavelmente, necessidades de administração que o justificavam (pelo menos em boa parte, caso contrario seria irracional ou puramente ostentatório, o que custa a crer).
Para o período e temática que agora discutímos, à falta de dados mais concretos, a “Corografia Portugueza” do Pe. António Carvalho da Costa (p. 187 da 2a. ed.) dá indicações com alguma utilidade.
Diz-nos que a vila de Fornos tinha 206 vizinhos e a de Algodres apenas 132, mas também que Algodres tinha nas freguesias do termo (das quais cita apenas Muxagata, Maceira, Casal Vasco, Fuínhas, Sobral Pichorro, Vila Chã e Ramirão) mais 517 vizinhos.
Diz-nos ainda que:
A) o concelho de Algodres tinha dois Juízes ordinários, Vereadores, um Procurador do concelho, Escrivão da câmara, Juíz dos orfãos com seu escrivão, e outro do Judicial & Notas, um Almotacel, um Alcaide e uma Companhia de Ordenanças da vila e três no termo (a capitania-mor era em Algodres como aqui já foi comentado);
B) o concelho de Fornos tinha um Juíz ordinário, Vereadores, um Procurador do concelho, Escrivão da câmara, Juíz dos órfãos com seu escrivão, um Alcaide e uma Companhia de Ordenanças.
Ainda que estas informações possam ter algumas imprecisões – e sem esquecer a decadência generalizada da administração em todos estes concelhos no época moderna, referida por Pinheiro Marques – parece razoável admitir que o concelho de Algodres continuava a ser o concelho mais importante e que em nenhum aspecto foi subordinado ao de Fornos, antes da extinção.
Continuou, aliás, a ser a referência toponímica mais importante, mesmo após a extinção, também por força do carácter pouco distinto e distintivo do topónimo “Fornos”. Homens influentes nasciam e organizavam a sua vida em Fornos, mas diziam-se naturais ”de Algodres”, como reza, a propósito de A. B. Costa Cabral, a biografia escrita pelo seu amigo D. José de Lacerda.
Porém, a partir do século XVI, a vila de Fornos foi-se efectivamente consolidando como a povoação mais importante e acabou por dominar. Este seu artigo explica porquê, desmistificando a versão da “cunha” política defendida desde Pinheiro Marques.


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